1 Reis 13.1-32
A história registrada em 1 Reis 13 é trágica e solene. Nela, encontramos dois homens: um profeta velho e um homem de Deus. Ambos haviam sido usados por Deus, mas o fim dos dois foi lamentável. A vida deles nos oferece importantes lições; porém, vamos nos concentrar especialmente na vida do profeta velho.
O profeta velho havia sido usado por Deus no passado, mas já não era mais útil ao Senhor. Quando Deus quis advertir a respeito de seu pecado, enviou um profeta de Judá, em vez de usar o profeta velho que morava em Betel. Por que Deus o rejeitou? Vejamos alguns motivos.
1. A velhice espiritual é sinal de morte e revela a perda do frescor da vida
O profeta velho de Betel havia sido usado por Deus no passado, mas já não podia mais ser usado. Quando o Senhor desejou advertir Jeroboão sobre o pecado cometido em Betel, não enviou o profeta que morava ali; em vez disso, enviou um homem de Deus vindo de Judá. Isso indica que o profeta velho já não era útil ao Senhor.
A palavra “velho”, aplicada a esse profeta, não descreve sua maturidade espiritual nem suas experiências anteriores com Deus. Ela revela, antes, que ele havia envelhecido espiritualmente e, por isso, se tornara inútil para o serviço do Senhor. Portanto, ser velho, nesse contexto, não significa ser maduro; significa ter perdido o frescor espiritual e a utilidade diante de Deus.
Na Palavra de Deus, a velhice espiritual é apresentada de forma negativa. Paulo afirma que a igreja deve ser apresentada ao Senhor “sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.26-27).
Isaque é um exemplo de alguém que, depois de velho, se tornou cego e passou a agir de maneira natural nas coisas de Deus. Jacó o enganou porque Isaque confiou em seus sentidos naturais: o tato, o olfato e a audição.
Jacó também passou por uma experiência semelhante. Porém, que diferença! Ao abençoar os filhos de José, ele deliberadamente cruzou as mãos sobre eles, agindo de acordo com a percepção do espírito, e não segundo os sentidos naturais.
Podemos ser fisicamente velhos e, ainda assim, permanecer espiritualmente cheios de frescor e de vida.
Deus deseja alimentar o seu povo com provisão celestial de forma contínua e renovada. Deus ordenou que os filhos de Israel fossem alimentados com comida que representava força e poder divino.
O Senhor estava oferecendo a eles um sustento e algo novo a cada amanhecer. O Senhor disse: “Eles comeram uma sombra, vocês vão comer uma realidade que sou eu.”
O poder transformador está conectado com manter a revelação fresca. Se você deixar passar muito tempo sem renovar sua compreensão do sacrifício de Jesus, você perde o poder transformador dessa revelação. Mantenha-se alimentado pela verdade fresca de Cristo.
Deixe que isso seja mantido fresco como se Ele tivesse acabado de morrer por você. Não deixe passar a revelação, ela se tornar velha e você perder a realidade.
2. Envelhecimento não significa amadurecimento
A expressão “homem de Deus” mostra que se trata de alguém que mantém comunhão com Deus. A comunhão com Deus é a base para receber luz espiritual. O fato de o outro ser chamado de “profeta velho” mostra que ele já não mantinha essa comunhão e, portanto, havia perdido a luz. Era alguém a quem Deus já não podia usar.
Quando temos apenas conhecimento mental, não crescemos espiritualmente. Os anos passam, mas nenhum crescimento verdadeiro se manifesta em nós. A luz que recebemos vinte anos atrás já não é suficiente para nos guiar hoje. Precisamos manter uma comunhão renovada e viva com Deus.
A palavra “velho” não descreve maturidade espiritual, mas um estado em que a pessoa perdeu o frescor espiritual. A Bíblia apresenta alguns exemplos que ajudam a compreender essa realidade.
O maná
Deus não aceita aquilo que se tornou velho e deteriorado. Quando alguém insistia em guardar o maná para o dia seguinte, ele criava vermes e cheirava mal. Isso mostra que Deus deseja de nós uma experiência viva e renovada, não algo antigo e meramente preservado.
O sacerdote
O sacerdote não podia tocar em nada morto. Também não podia estar em contato com um morto e, em seguida, apresentar-se para ministrar ao Senhor. Não há comunhão entre Deus, que é vida, e a morte.
O nazireu
O nazireu era alguém consagrado ao Senhor. Por essa razão, não podia tocar em nada morto. Sua consagração exigia separação de tudo aquilo que representasse a morte.
Os odres velhos
O vinho novo aponta para o evangelho e para a nova aliança. O odre representa a antiga aliança da lei. Deus sempre tem trazido vinho novo, mas esse vinho novo não pode ser derramado sobre gente legalista.
Ser novo também significa ser flexível. O odre era feito de couro e, à medida que envelhecia, tornava-se rígido. Como o vinho novo ainda estava em processo de fermentação, seu volume aumentava e podia romper o odre velho. Para permanecer novo, o odre precisava ser ungido com óleo, a fim de conservar sua flexibilidade.
Somente a unção do Espírito pode manter-nos espiritualmente frescos e flexíveis, aptos a receber o mover de Deus e a conservar seu vinho novo.
3. Desejava agradar a todos
O profeta velho não queria ser desagradável nem inconveniente. Afinal, Jeroboão era o rei e, aparentemente, estava apenas tentando buscar a Deus.
Jeroboão era rei de Israel e havia estabelecido um lugar de culto fora de Jerusalém. Deus não havia aprovado essa decisão. Embora o povo afirmasse adorar a Deus, fazia isso fora da direção estabelecida pelo Senhor.
O profeta velho via tudo o que acontecia em Betel, mas não fazia nada. Ele não conhecia a mente de Deus nem compreendia sua vontade. Como alguém pode falar em nome de Deus se não conhece a mente de Deus?
4. Não conhecia a mente de Deus nem os seus caminhos
Se chegarmos à conclusão de que tudo está bem — de que o culto em Jerusalém é correto e a adoração em Betel também é aceitável —, isso será prova de que não percebemos o erro e de que há algo radicalmente errado conosco.
Há muitas pessoas semelhantes ao profeta velho. Seus olhos espirituais estão embaçados e debilitados; por isso, não conseguem enxergar aquilo que é pecaminoso aos olhos de Deus. Presumem que, enquanto o Senhor estiver recebendo adoração, não importa se o culto acontece em Betel ou em Jerusalém.
5. Tinha o título, mas não tinha a realidade
Embora já não fosse usado por Deus, o profeta velho ainda conservava o título de profeta. Chegou, inclusive, a mentir, afirmando que um anjo lhe havia aparecido.
Foi justamente o título de profeta que impressionou o homem de Deus e, por fim, contribuiu para que ele desobedecesse à palavra do Senhor e recebesse a disciplina correspondente.
O título, a reputação e as experiências do passado não substituem a realidade espiritual presente. O que importa não é apenas aquilo que alguém foi ou afirma ser, mas sua condição atual diante de Deus.
6. Procurou participar do mover de Deus da forma errada
O homem de Deus foi enganado pelas palavras do profeta velho, que lhe disse:
Também eu sou profeta como tu, e um anjo me falou por ordem do Senhor, dizendo: Faze-o voltar contigo à tua casa, para que coma pão e beba água. (1 Rs 13.18)
O homem de Deus talvez tenha pensado que, se o profeta velho era realmente profeta, certamente possuía mais experiência do que ele e, portanto, deveria ser obedecido. Assim, aceitou a nova mensagem apresentada pelo profeta velho.
O profeta velho falou uma mensagem nova. Há muitas pessoas falando sobre algo novo, mas, na realidade, são profetas velhos disfarçados sob uma nova aparência. A maneira usada pelo profeta velho para enganar o homem de Deus foi combinar seu título com uma mentira sutil.
Muitos inventam experiências ou as exageram para impressionar os outros e transmitir a ideia de que realmente estão participando do mover de Deus. No entanto, a aparência de novidade não comprova a realidade espiritual.
7. Não há remédio para aquilo que envelheceu
Embora o profeta velho também tivesse pecado, não recebeu nenhuma disciplina naquele momento. Isso mostra que Deus já havia passado adiante e que não havia mais nada a ser feito em relação à sua condição.
O profeta velho chegou a mentir, afirmando que um anjo lhe havia aparecido e ordenado que o homem de Deus comesse pão e bebesse água em sua casa. Essa suposta mensagem contrariava diretamente a palavra que Deus havia dado ao homem de Deus.
Depois que alguém que serve ao Senhor recebe uma direção clara nas Escrituras, não deve dar ouvidos a nenhum profeta velho cujas palavras não estejam de acordo com a palavra de Deus e com o mover atual do Senhor.
Paulo apresenta esse mesmo princípio:
Ainda que nós, ou mesmo um anjo vindo do céu, vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. (Gl 1.8)
O evangelho que Paulo pregava não procedia dos homens, mas da revelação de Jesus Cristo (Gl 1.11-12). Alguns, porém, chegaram à Galácia tentando perverter esse evangelho e começaram a anunciar aos crentes outro evangelho.
Observe que Paulo também disse: “ainda que nós”. Com isso, ele queria dizer que, mesmo que ele próprio voltasse e pregasse um evangelho diferente daquele que sempre havia anunciado, os crentes não deveriam aceitar essa nova mensagem. Deveriam crer somente no evangelho recebido mediante a revelação de Jesus Cristo.
Em seguida, Paulo afirma: “ou um anjo do céu”. Dessa forma, lembrou aos gálatas que nem mesmo a palavra de um anjo deveria ser aceita se contradissesse a verdade de Deus.
Ao falar sobre os falsos apóstolos em 2 Coríntios 11, Paulo declarou:
Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar; porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras. (2 Co 11.13-15)
Um “anjo de luz” usa uma máscara de hipocrisia que facilmente faz com que as pessoas deixem de vigiar. Como os crentes da Galácia, que já haviam ouvido o evangelho do Senhor, puderam ser enganados por esses homens? Eles afirmavam que também pregavam o evangelho e que pretendiam guardar zelosamente a lei de Deus.
Assim, podemos concluir que:
· Quando o homem perde a comunhão com Deus, ele envelhece espiritualmente, perde o frescor e deixa de enxergar com clareza.
· Não devemos nos deixar impressionar pelas experiências antigas nem pelos títulos das pessoas, mas observar sua realidade espiritual diante de Deus.
· Tudo o que é anunciado em linguagem espiritual deve estar de acordo com a palavra de Deus; caso contrário, deve ser rejeitado, independentemente de ser anunciado por um profeta velho ou por um anjo.